Primeira grande exposição sobre o passado escravista da Holanda

A exposição Escravidão (Slavernij) no “Rijksmuseum”, museu nacional de arte e história dos Países Baixos em Amsterdã, apresenta o período colonial holandês, com seus 250 anos de escravidão, pelos olhos de pessoas que estiveram envolvidas.

A escravidão faz parte da história da Holanda

A exposição abrange histórias da escravidão no Suriname, Brasil e Caribe, com o papel da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC), assim como na África do Sul e Ásia, onde a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) era ativa. Os efeitos do sistema na própria Holanda também são destacados. O resultado é uma perspectiva geográfica ampla e, ao mesmo tempo, uma perspectiva especificamente holandesa, que ainda não tinha sido mostrada em um museu nacional.

No auge de seu império colonial, do século XVII ao século XIX, a Holanda dominou áreas ao redor dos Oceanos Atlântico e Índico. A nação tinha sete colônias no Caribe, incluindo Suriname e Curaçao, na África do Sul e na atual Indonésia. A população holandesa conhece bem essa parte da história, mas em geral desconhece seus laços com a escravidão.

Histórias reais

A exposição temporária no museu nacional retrata a relação do país com a escravidão através de histórias reais de dez personagens. São histórias de pessoas escravizadas, escravos que resistiram, proprietários de fazendas e regentes. Uma delas conta sobre João Mina, africano que foi levado como escravo para o Brasil, onde acaba fugindo para a colônia holandesa no Nordeste.

Exposição Slavernij / Slavery

Os visitantes que vão pessoalmente ao “Rijksmuseum” fazem uma excursão com guia de áudio que os leva em uma viagem por essas vidas. Quem está longe também pode acompanhar todas as dez histórias on-line, no site do museu – link em holandês https://www.rijksmuseum.nl/nl/stories/slavernij e link em inglês. https://www.rijksmuseum.nl/en/stories/slavery

O “Rijksmuseum” funciona num edifício gótico renascentista em Amsterdã desde 1885. O acervo do museu conta com peças de valor histórico, de arte e artesanato do período entre os anos 1200 e 2000. Com esta exposição, o museu está fazendo uma contribuição considerável para fazer conhecida esta página da história nacional e levantar o debate sobre o tema.

A exposição Escravidão foi aberta no dia 18 de maio, com apresentação para o Rei Willem-Alexander, e pode ser conhecida até o dia 29 de agosto de 2021. O diretor-geral do museu, Taco Dibbits afirma o seguinte: “Ao nos debruçarmos sobre a escravidão, podemos formar um retrato mais completo da nossa história e um melhor entendimento da sociedade atual”.

Escravidão no mundo – a história que é de todos nós

A escravidão foi praticada por muitos povos desde as épocas mais antigas. Em geral, eram feitos escravos os prisioneiros de guerra e pessoas com dívidas, mas posteriormente destacou-se a escravidão de negros. Vale lembrar que a chegada dos europeus ao continente africano fez aumentar um sistema de venda de cidadãos ou de inimigos vizinhos como escravos que já existia e enriquecia os reinos africanos. Na idade Moderna, sobretudo a partir da descoberta da América, houve a expansão da atividade escravista, desenvolvendo-se um cruel e lucrativo comércio de pessoas entre a África e as Américas.

História compartilhada de escravidão

Compartilhamos dessa história, pois portugueses, brasileiros e holandeses trouxeram negros africanos de suas colônias na África para utilizar como mão-de-obra escrava nos engenhos do Nordeste.

Sobre os neerlandeses sabemos que foram grandes comerciantes de escravos, que inicialmente estavam interessados no ouro do Brasil. O comércio de pessoas logo se consolidou como o maior negócio do mundo. O tráfico de escravos se tornou importante especialmente após 1630, quando haviam conquistado o nordeste aos portugueses. Historiadores revelam que no período seguinte, em dez anos 26.000 escravos foram trazidos somente para a colônia chamada Nova Holanda. Após esse período os holandeses transferiram o comércio de escravos africanos para as colônias espanholas e francesas e para o Suriname.

A escravidão também é um assunto muito importante da história do Brasil, talvez o mais importante. O movimento escravista deixou profundas cicatrizes na sociedade brasileira, onde também é insuficientemente discutido. Milhões de pessoas foram tiradas de suas terras na África, marcadas a ferro quente, embarcadas em navios, e comercializadas como se fossem produtos.

A abolição da escravatura

A abolição da escravatura no Brasil ocorreu no dia 13 de maio de 1888, por meio da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel. Esta lei libertou os escravos no Brasil após quase 400 anos de escravidão.

Tanto os escravos africanos, quanto os indígenas foram elementos essenciais para a formação não somente da população, mas também da cultura brasileira. A diversidade étnica no Brasil decorre do processo de miscigenação entre colonos europeus (portugueses), indígenas e africanos.

Recordar e comemorar

Os Países Baixos aboliram formalmente a escravidão nas antigas colônias do Suriname e das Antilhas Holandesas no dia 1º de julho de 1863. Todo ano o país recorda e comemora a abolição da escravatura no monumento “História da Escravidão” no Oosterpark, em Amsterdã. Também neste dia é celebrada a festa anual “Keti Koti” (Cadeias Quebradas).

Em 1º de julho de 2021 a prefeita Halsema pediu desculpas oficiais em nome do governo da cidade de Amsterdã pelo papel da cidade no passado escravista, um momento historicamente importante, que era esperado há tempos. Reconhecimento do passado e desculpas de outras cidades devem seguir, assim como estão planejando uma comemoração maior em 2023, com direito a desculpas nacionais.

Em vários lugares da Holanda vítimas e combatentes pela liberdade da escravidão são lembrados no dia 1º de julho. Dia para envolver o povo holandês no encerramento desse período negro na sua história.
O passado colonial escravista de certa forma não fez parte da memória coletiva da Holanda, fazendo com que gerações crescessem sem conhecer o passado de maneira completa. Somente há alguns anos a história da sua relação com a escravidão vem sendo esclarecida e se tornando um ponto de discussão na comunidade neerlandesa.

Como a escravidão está sendo recordada atualmente?

Deixamos algumas sugestões acessíveis on-line, a fim de aumentar o envolvimento e a discussão sobre este tema tão importante:

– Exposição sobre a Escravidão no museu nacional (Slavernij / Slavery), acesse em holandês link ou inglês. link.
– Abertura da exposição em 18/05/21 com o Rei Willem-Alexander. Assista pelo NOS “Opening Slavernijtentoonstelling Rijksmuseum”: link.
– Documentário: Nova Luz (Nieuw Licht) Documentário sobre o Museu Nacional e a Escravidão – 2Doc Seizoen 1 Afl. 29 (em holandês). link
– Programa de rádio: NOS Herdenking Slavernijverleden – NPO Radio 1 Special, duas horas de programação relacionada ao passado escravista e atualidades sobre o tema na Holanda: link
– Podcast: A plantação de nossos antepassados (De plantage van onze voorouders)- Série de oito podcasts da VPRO onde Maartje Duin e Peggy Bouva investigam os vestígios da história da escravidão em sua história familiar. Os pais de Maartje eram acionistas da plantação onde os pais de Peggy foram escravizados. Para quem entende holandês este podcast é muito interessante: link
– Revista: Escravidão, e agora? (Slavernij, en nu?) – Revista educativa sobre a escravidão e sua relação com o racismo contemporâneo, produzida pela ThiemeMeulenhoff e o Museu Nacional (Rijksmuseum), em holandês: link

Voltar para a página: Notícias

Rijksmuseum, 2014 por John Lewis Marshall

Exposição Escravidão, de Rijksmuseum.

Exposição Escravidão, de Rijksmuseum.

Exposição Escravidão, de Rijksmuseum.

Tronco para prender pessoas escravizadas, ca.1600-1800, de Rijksmuseum.

Dirk Valkenburg: Plantação de Jonas Witsen, provavelmente Palemenribo. 1707, de Rijksmuseum.

Artista anônimo: Homens escravizados, c.1850 de Rijksmuseum Fonds.