A história da família Struiving – Loen

 

Por Gilberto de Geus

  

Na vida normalmente temos duas famílias: a família chamada de “sangue”, da qual descendemos e a família que escolhemos através do casamento. Pois bem, a família Struiving -Loen, foi a família que escolhi. Família da Panoka (Willemke), minha mulher.

Começamos a história em Grijpskerk, cidade da província de Groningen – Holanda. Jacob Struiving (pai da Panoka) nasce em 26/05/21, passa sua juventude na Holanda, até ser convocado pelo Exército holandês para servir seu país, é destinado para lutar na então colônia holandesa – a Indonésia, no período de 1946 a 1947. Também seu irmão Ulbe é convocado para servir ao exército, e é morto aos 22 anos pela explosão de uma bomba. Jacob então é obrigado a comunicar sua mãe via carta o acontecido. Segue um trecho desta carta: “Querida Mãe, Deus levou até Ele o Ulbe. Mãe eu não consegui falar com ele, ele se foi muito rapidamente. Ele estava deitado do lado da estrada com as mãos entrelaçadas. Aconteceu com a explosão de uma bomba e mais 3 jovens foram igualmente mortos. Mãe, para nosso consolo ele era temente a Deus e isso deve servir de alento para os que ficam. Deus não deixa ninguém ser levado sem ser através da Sua vontade. Aqui está muito difícil de entender tudo isso, mas saber que ele agora está com Deus deve ser uma grande alegria para nós. Rezo para que Deus possa me manter vivo para que na volta eu possa ajudar a senhora trabalhando para nosso sustento.Um beijo enorme e forças mãe para seguir em frente”.

Jacob sobrevive aos horrores da guerra e resolve permanecer na Indonésia por considerá-la uma terra cheia de oportunidades e de clima muito agradável. Estabeleceu-se em Depok, próximo a Jacarta e casou-se com Tante Suze.

Tante Suze era o nome carinhoso da Suzanna Adelina Loen. Nascida em 05/04/31 em Depok- Indonésia. Depok é a abreviação das seguintes palavras holandesas – De Eerste Protestantse Overzeese Kristengemeenschap( A Primeira Comunidade Evangélica Protestante do Outro Lado do Oceano). O jovem holandês, Cornelis Chastelein, aos 17 anos imigra para a Indonésia como guarda-livros, faz carreira e adquire uma grande extensão de terras. Para o trabalho necessita de pessoas (escravos) e nessa condição começam a trabalhar com ele 11 famílias. Seu lado humanitário, e por não possuir herdeiros, propõe que as famílias se convertam ao cristianismo, em seguida liberta-as e lhes dá a posse da terra. Entre essas famílias estava a família Loen, descendente de amboneses.

Depois do fim da guerra, Jacob Struiving adquire um pedaço de terra onde começa com o plantio de verduras e criação de porcos. Casa-se com Suzanna em 06/08/54. Festa que dura três dias, conforme tradição indonésia. Com o término da Segunda Guerra mundial os indonésios, incentivados pelos japoneses, querem sua independência da Holanda. Começa aí uma época de muita crueldade com os holandeses e com aqueles que possuem vínculos familiares com estes. Depok torna-se alvo da ira dos xenófobos indonésios por ser uma região autossustentável de fé cristã e poderia ser vista pelos demais indonésios como exemplo a ser seguido, o que ia contra a ideia dos terroristas de formação islâmica. É hora de partir para outra terra antes que terroristas acabem por matar estas pessoas. Jacob e Suze, para sua segurança como também dos três filhos já nascidos, resolvem voltar para a Holanda. Em 06/58 embarcam de Jacarta rumo à Holanda. Alguns motivos fazem com que Jacob não se sinta mais tão em casa na terra natal. Um dos motivos é o clima, ele se acostumou bem ao clima tropical. O outro é o medo de que sua família sofra preconceito racial, ele não gostaria de ver sua família sendo discriminada pela cor. Os indonésios eram conhecidos e chamados de “holandês preto”. Primeira opção do casal seria o Canadá, mas lá fazia ainda mais frio que na Holanda. Então num pequeno jornal holandês lê um anúncio de que no Brasil, especificamente em Carambeí, uma cooperativa de laticínios está precisando de mão de obra qualificada na área de manutenção da fábrica. Recorta o artigo, tenta descobrir detalhes sobre a vaga e resolve, junto com sua esposa, emigrar para o Brasil levando seus 3 filhos e a Tante Suze grávida da Panoka. Chegam ao Brasil em janeiro de 1959.

Chegando em Carambeí começa a trabalhar na oficina mecânica do Rienk Jacobi e em maio de 1959 começa a trabalhar na cooperativa como maquinista. Nos primeiros anos moram numa casa cedida pelos carambeianos, mas logo consegue comprar uma pequena propriedade no centro de Carambeí. A primeira brasileirinha da família nasce em 04/08/59 – Willemke Struiving (Panoka). Durante muitos anos Sr. Jacob contribui com seus serviços técnicos na Cooperativa de Laticínios, permanecendo nesta empresa até 1967. Enquanto isso sua esposa Tante Suze participa da vida comunitária, liderando por vários anos o “meisjesclub” (clube das meninas), e em festividades mostra sua habilidade na gastronomia indonésia, sendo a grande propagadora do “Rijsttafel”(um conjunto de pratos indonésios formando uma espécie de banquete); também realiza cursos para interessados em aprender a elaborar os diversos pratos da comida indonésia. A família aumenta e nascem mais 4 brasileirinhos, totalizando 8 filhos.

A Casa dos Struiving era sempre muito visitada pela criançada, inclusive por mim, lá, além de brincadeiras muitas vezes tínhamos um lanche feito com muito carinho pela Tante Suze e em troca nós ajudávamos a criançada nas tarefas da pequena chácara. Entre elas o trato das galinhas poedeiras, dos porcos e classificação e limpeza dos ovos. Uma festa, que quando terminava dava inicio às brincadeiras e entre elas o “Monopoly” (Banco Imobiliário) que era uma novidade para a piazada de Carambeí.

Depois de anos trabalhando na cooperativa Sr. Jacob resolve começar com uma chácara de produção leiteira. Compra um trator “Urso” que no inverno dava muito trabalho para entrar em funcionamento e quando entrava mais parecia um foguetório do que um trator, era tiro daqui, tiro dali. Certa vez os diretores da Cooperativa Batavo, que ficava sediada em frente à sua pequena chácara, estavam em reunião quando Sr. Jacob resolve por em funcionamento o velho “Urso”. A reunião teve que ser interrompidapois ninguém ouvia ninguém, de tanto barulho. O gerente geral resolve tirar satisfação com o vizinho, que de pronto responde: “Eu estou trabalhando aqui enquanto vocês ficam discutindo bobagens e tomando cafezinho ali” e decidindo verificar “in loco” a reclamação invade a sala de reuniões, senta-se numa das cadeiras e conclui: “Não sei do que vocês estão reclamando, o barulho não está tão alto assim”, e continuou no seu ritmo e com o barulho ensurdecedor do seu trator. Este era o lado holandês do Sr. Jacob – bruto, rústico e sistemático.

Quis o destino que a família da Panoka atravessasse dois mares e viesse morar em Carambeí, para que eu pudesse, junto com ela, formar a nossa família. Que o mesmo Deus que deu forças à família de seu pai para suportar a perda de um filho/irmão permita que nós possamos continuar juntos por muitos e muitos anos.